Anime | 10/07/2015 22:14 - Atualizado em 12/07/2015 17:25

Knights of Sidonia: desespero no universo, robôs e aliens gigantes

Série reúne muitos elementos, mas sofre com 'estrutura de mangá'.
Animação em CG é esquisita, mas riqueza dos ambientes compensa.

Knights of Sidonia (Cavaleiros de Sidonia) é uma série de animação japonesa “original Netflix“. Pelo menos é isso que diz a tela quando você assiste um episódio no Netflix, mas eu realmente não entendo bem como isso funciona, já que a série passa primeiro na TV japonesa antes de ser distribuída mundialmente pelo Netflix.

Em todo caso, sendo a primeira e até agora única série de animê a ter essa exclusividade de streaming no Netflix, eu queria saber o que ela tinha de tão especial. A resposta? Não muito, mas tem um certo “charme” e uma produção bastante curiosa em certos aspectos.

Personagens de Knights of Sidonia

Personagens de Knights of Sidonia

Sidonia é uma nave espacial que vaga pelo universo procurando recursos para manter sua população de 500 mil pessoas. Os habitantes de Sidonia são provavelmente tudo o que resta da humanidade, que há centenas de anos sofre ataques de alienígenas chamados de gaunas.

Enfrentar os gaunas é um ritual curioso. Eles têm um núcleo (o “corpo real”), protegido por uma camada de placenta (pele, basicamente). É preciso abrir caminho na placenta para entrar e destruir o núcleo. Daí o gauna se desintegra imediatamente.

No início da série, o núcleo só pode ser destruído por uma espécie de lança, a kabizashi, o que torna as batalhas com as gaunas extremamente difíceis para quem precisa desferir o golpe final. A kabizashi é empunhada por Guardiões — termo usado em Sidonia para os robôs gigantes.

O motivo do aparecimento desses alienígenas é desconhecido e há quem defenda uma postura pacifista, alegando que são as próprias kabizashi que atraem os gaunas. Mas os comandantes de Sidonia estão mais preocupados com a falta de bons pilotos de Guardiões e com a escassez de kabizashi.

A série começa com Nagate Tanikaze, que vivia recluso em um beco de Sidonia, sendo capturado e acusado de roubar arroz. Não demora para que o talento de Tanikaze como piloto de Guardião seja descoberto — ele treinava em um simulador, por incentivo do avô que morava com ele.

A série se desenrola com a justaposição de três elementos: o desespero total diante da ameaça dos gaunas; a simplicidade de Tanikaze — que só quer saciar sua fome[1. Imagine se a comida preferida dele fosse ramen-tebayô!] enquanto ajuda as pessoas –, e os bastidores políticos de Sidonia, que envolvem pesquisas secretas para o desenvolvimento de novas armas e uma avançada ciência genética que foi em parte escondida da população e que está relacionada ao passado de Tanikaze.

(Se tiver interesse, veja também o trailer da segunda temporada.)

Física, ficção e movimento

O desenho dos personagens de Sidonia não impressiona muito. O dos Guardiões também é bem simples e você até será perdoado se não notar diferença entre um e outro. Por outro lado, a nave Sidonia em si é bem singular: é basicamente um longo octógono com um “miolo” orgânico.

A aceleração em Sidonia não é nada confortável.

A aceleração em Sidonia não é nada confortável.

A maneira que a série trata algumas questões da física também é bastante interessante. Quando a nave Sidonia acelera, todos precisam se fixar com uma fivela em locais específicos da nave para não serem levados pela força do jato.

O interior de Sidonia é tão diferente quanto sua aparência externa. A nave tem centenas de anos, então tudo tem cara de velho e desgastado, prestes a ruir — sabe-se lá o que ainda funciona. Nem as roupas são poupadas. Nada é “limpo”. Ou seja, lembra mais um Battlestar Galactica do que, digamos, Jornada nas Estrelas.

Nos intervalos dos episódios, há desenhos dos “locais de Sidonia”, destacando ainda mais esse ambiente.

A animação é toda feita em computação gráfica. É até estranho, porque alguns movimentos fluem de um jeito bem esquisito. É difícil dizer se a taxa de quadros é muito alta ou baixa. Já os ângulos diferentes e a paleta de cores bem escolhida do animê combinam bastante com a série.

Mais do mesmo e sem destino

Não é só a nave Sidonia que vaga pelo espaço. A série também vaga. O motivo é que ela é baseada em um mangá que ainda não terminou.

Ou seja, a série não consegue definir seu destino, porque não tem onde chegar.

As duas temporadas terminam bruscamente. Não é o fim de um arco da história. Nada. Simplesmente acaba e fica óbvio que é preciso de mais. É difícil até definir qual foi o principal acontecimento de cada temporada, porque o mangá não está estruturado em “blocos” como exige um seriado, seja de streaming ou TV, dividido por temporadas.

Isso não significa que nada acontece. Pelo contrário. Nenhum episódio fica “enrolando”. A história progride a um bom ritmo[2. O mangá tem ar mais “desesperado” e deixa alguns acontecimentos sem muitos detalhes.]. Por outro lado, durante o animê fica difícil lembrar qual o foco, ou seja, o que motiva as ações do comando de Sidonia. A explicação está lá, mas facilmente passa despercebida sem um esforço de memória.

Outro detalhe é a falta de inovação nos dramas amorosos. Até o final da segunda temporada, Sidonia já vai ter incorporado elementos de animes de harém e namorada mágica. Ou seja, todas as garotas (e até um [garoto?]) querem o Tanikaze.

A nave Sidonia

A nave Sidonia

Uma boa viagem

Não tenho a mínima ideia do que fez o Netflix escolher Sidonia para barganhar por um lançamento mundial e usar o termo de “série original Netflix”. Essa é a decepção maior: ter pensado que algo seria feito diferente. Mas não é o caso, e digo isso por conta de dois “vilões”: meu conhecimento prévio e minha expectativa.

No fim, é só mais um animê de robôs gigantes baseado em um mangá.

Ainda assim, Sidonia é muito melhor do que outras animações recentes de robôs gigantes, como Fafner ou Aldnoah Zero (que só se salvava pela música). Também não é Evangelion, mas Evangelion nunca nos deixou viajar no espaço. Apesar de seus momentos infantis, Sidonia é mais adulto que Macross e os gaunas são muito mais assustadores que alienígenas vencidos pela música.

Como viagem espacial, Sidonia vale mais que Terra e.

Em outras palavras, Sidonia tem, no conjunto, uma proposta interessante. Nos falta saber como vai acabar, mas a viagem, no fim das contas, já está sendo boa.

(Esta série ficará sem grau por enquanto, já que a avaliação depende bastante da série como um todo e ainda não se tem algo que se possa chamar de final.)

Ficha Técnica conheça nosso sistema de notas
Knights of Sidonia Título Knights of Sidonia Nota
Direção Kōbun Shizuno 8.0
Roteiro Sadayuki Murai / Tsutomu Nihei Grau
Compositor Noriyuki Asakura
Estúdio Polygon Pictures
Lançamento 04/2014 — 06/2014 (TV/1ª)
04/07/2014 (Netflix/1ª)
04/2015 — 06/2015 (TV/2ª)
03/07/2015 (Netflix/2ª)
Duração 12*24 minutos (1ª)
11*24 + 1*30 minutos (2ª)
 
conheça o autor

Altieres Rohr é editor-chefe do Garagem 42, jornalista, fã de anime e RPG. Diz também que é colunista no G1 e o responsável pelo Linha Defensiva. Também arrisca escrever literatura e opiniões que só ele acha interessantes no blog pessoal.