Knights of Sidonia (Cavaleiros de Sidonia) é uma série de animação japonesa “original Netflix“. Pelo menos é isso que diz a tela quando você assiste um episódio no Netflix, mas eu realmente não entendo bem como isso funciona, já que a série passa primeiro na TV japonesa antes de ser distribuída mundialmente pelo Netflix.

Em todo caso, sendo a primeira e até agora única série de animê a ter essa exclusividade de streaming no Netflix, eu queria saber o que ela tinha de tão especial. A resposta? Não muito, mas tem um certo “charme” e uma produção bastante curiosa em certos aspectos.

Personagens de Knights of Sidonia

Personagens de Knights of Sidonia

Sidonia é uma nave espacial que vaga pelo universo procurando recursos para manter sua população de 500 mil pessoas. Os habitantes de Sidonia são provavelmente tudo o que resta da humanidade, que há centenas de anos sofre ataques de alienígenas chamados de gaunas.

Enfrentar os gaunas é um ritual curioso. Eles têm um núcleo (o “corpo real”), protegido por uma camada de placenta (pele, basicamente). É preciso abrir caminho na placenta para entrar e destruir o núcleo. Daí o gauna se desintegra imediatamente.

No início da série, o núcleo só pode ser destruído por uma espécie de lança, a kabizashi, o que torna as batalhas com as gaunas extremamente difíceis para quem precisa desferir o golpe final. A kabizashi é empunhada por Guardiões — termo usado em Sidonia para os robôs gigantes.

O motivo do aparecimento desses alienígenas é desconhecido e há quem defenda uma postura pacifista, alegando que são as próprias kabizashi que atraem os gaunas. Mas os comandantes de Sidonia estão mais preocupados com a falta de bons pilotos de Guardiões e com a escassez de kabizashi.

A série começa com Nagate Tanikaze, que vivia recluso em um beco de Sidonia, sendo capturado e acusado de roubar arroz. Não demora para que o talento de Tanikaze como piloto de Guardião seja descoberto — ele treinava em um simulador, por incentivo do avô que morava com ele.

A série se desenrola com a justaposição de três elementos: o desespero total diante da ameaça dos gaunas; a simplicidade de Tanikaze — que só quer saciar sua fome[1. Imagine se a comida preferida dele fosse ramen-tebayô!] enquanto ajuda as pessoas –, e os bastidores políticos de Sidonia, que envolvem pesquisas secretas para o desenvolvimento de novas armas e uma avançada ciência genética que foi em parte escondida da população e que está relacionada ao passado de Tanikaze.

(Se tiver interesse, veja também o trailer da segunda temporada.)

Física, ficção e movimento

O desenho dos personagens de Sidonia não impressiona muito. O dos Guardiões também é bem simples e você até será perdoado se não notar diferença entre um e outro. Por outro lado, a nave Sidonia em si é bem singular: é basicamente um longo octógono com um “miolo” orgânico.

A aceleração em Sidonia não é nada confortável.

A aceleração em Sidonia não é nada confortável.

A maneira que a série trata algumas questões da física também é bastante interessante. Quando a nave Sidonia acelera, todos precisam se fixar com uma fivela em locais específicos da nave para não serem levados pela força do jato.

O interior de Sidonia é tão diferente quanto sua aparência externa. A nave tem centenas de anos, então tudo tem cara de velho e desgastado, prestes a ruir — sabe-se lá o que ainda funciona. Nem as roupas são poupadas. Nada é “limpo”. Ou seja, lembra mais um Battlestar Galactica do que, digamos, Jornada nas Estrelas.

Nos intervalos dos episódios, há desenhos dos “locais de Sidonia”, destacando ainda mais esse ambiente.

A animação é toda feita em computação gráfica. É até estranho, porque alguns movimentos fluem de um jeito bem esquisito. É difícil dizer se a taxa de quadros é muito alta ou baixa. Já os ângulos diferentes e a paleta de cores bem escolhida do animê combinam bastante com a série.

Mais do mesmo e sem destino

Não é só a nave Sidonia que vaga pelo espaço. A série também vaga. O motivo é que ela é baseada em um mangá que ainda não terminou.

Ou seja, a série não consegue definir seu destino, porque não tem onde chegar.

As duas temporadas terminam bruscamente. Não é o fim de um arco da história. Nada. Simplesmente acaba e fica óbvio que é preciso de mais. É difícil até definir qual foi o principal acontecimento de cada temporada, porque o mangá não está estruturado em “blocos” como exige um seriado, seja de streaming ou TV, dividido por temporadas.

Isso não significa que nada acontece. Pelo contrário. Nenhum episódio fica “enrolando”. A história progride a um bom ritmo[2. O mangá tem ar mais “desesperado” e deixa alguns acontecimentos sem muitos detalhes.]. Por outro lado, durante o animê fica difícil lembrar qual o foco, ou seja, o que motiva as ações do comando de Sidonia. A explicação está lá, mas facilmente passa despercebida sem um esforço de memória.

Outro detalhe é a falta de inovação nos dramas amorosos. Até o final da segunda temporada, Sidonia já vai ter incorporado elementos de animes de harém e namorada mágica. Ou seja, todas as garotas (e até um [garoto?]) querem o Tanikaze.

A nave Sidonia

A nave Sidonia

Uma boa viagem

Não tenho a mínima ideia do que fez o Netflix escolher Sidonia para barganhar por um lançamento mundial e usar o termo de “série original Netflix”. Essa é a decepção maior: ter pensado que algo seria feito diferente. Mas não é o caso, e digo isso por conta de dois “vilões”: meu conhecimento prévio e minha expectativa.

No fim, é só mais um animê de robôs gigantes baseado em um mangá.

Ainda assim, Sidonia é muito melhor do que outras animações recentes de robôs gigantes, como Fafner ou Aldnoah Zero (que só se salvava pela música). Também não é Evangelion, mas Evangelion nunca nos deixou viajar no espaço. Apesar de seus momentos infantis, Sidonia é mais adulto que Macross e os gaunas são muito mais assustadores que alienígenas vencidos pela música.

Como viagem espacial, Sidonia vale mais que Terra e.

Em outras palavras, Sidonia tem, no conjunto, uma proposta interessante. Nos falta saber como vai acabar, mas a viagem, no fim das contas, já está sendo boa.

(Esta série ficará sem grau por enquanto, já que a avaliação depende bastante da série como um todo e ainda não se tem algo que se possa chamar de final.)

Ficha Técnica conheça nosso sistema de notas
Knights of Sidonia Título Knights of Sidonia Nota
Direção Kōbun Shizuno 8.0
Roteiro Sadayuki Murai / Tsutomu Nihei Grau
Compositor Noriyuki Asakura
Estúdio Polygon Pictures
Lançamento 04/2014 — 06/2014 (TV/1ª)
04/07/2014 (Netflix/1ª)
04/2015 — 06/2015 (TV/2ª)
03/07/2015 (Netflix/2ª)
Duração 12*24 minutos (1ª)
11*24 + 1*30 minutos (2ª)

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

2 Comments

  1. André Gonçalves 21/06/2016 às 08:26

    HUnnn, quando terminei de ler esse texto, estive pensando qual foi a reação das pessoas quando assistiram uma odisseia no espaço, “cá” entre nós é um puta clássico (desculpa o palavrão) sem sentido. Acredito que sidonia tenha um pouco disso, mas é possivel pensar e ter alguma explicação, acho que não precisa ter um passado bem explicado passou tanto tempo depois da terra, vamos pensar é um cenário apocalíptico, muitas coisas aconteceram e são apresentadas no decorrer da série, acredito que realmente, vou frisar, não precisa por todos os pingos nos “i”, porque muita série que foi bem explicada caiu no esquecimento e muita sério que deixou um “?” como Arquivo X por exemplo, deixou um marco. Não sei se toda série tem esse objetivo, bom não a série mas as pessoas sim, porque nem o escritor, “mangaka” espera por isso, enfim.
    Depois de ler essa cronica, acredito que o autor desse texto Sr. Rohr, apenas passou pelos capitulo ou mal assistiu os capitulo, vamos dizer você quis motivar a leitura desse texto e ainda dar um 8, que ao meu ver é uma boa nota, mas, daria um nove porque nem o marco da história terminou, possui apenas 2 temporadas.
    Gostaria de comentar que existe elementos bem marcados no anime, sobre, os gaunas, sobre uma nova terra, sobre a existência do protagonista da série, do mistério dos antigos moradores que não morre… isso são alguns.
    Faltou muita coisa nesse texto, acho que faltou comentar sobre o processo biológico dos humanos de sidonia, faltou falar sobre atmosfera de sidonia, falar mais da política, como seria viver em um mundo pequeno e sabe que existem outras naves voando com outras pessoas pelo espaço. Não foi o melhor anime que já assiste, ele tem seus elementos ruins, no entanto tem seus mistérios, os robôs, é apenas uma pitada, o desenrolar do romance acho que é o mais interessante a nível apocalíptico haha, e tenho que dizer que não foi a melhor cronica que eu já lê para um anime dessa alcunha, além de faltar muitos comentários que aprofunda os mistérios de sidonia, dizer que as temporadas terminam abruptamente, meu Deus, matem Martin pelas suas cronicas de Gelo e Fogo, diga para kurumada (Saint Seya) as loucuras feitas, e o meu preferido por Masamune Shirow, esse sim em sua certidão deveria ser Sr. abruptamente, ou, sem um destino aparente.

    O interessante é entrar nesse mundo que o autor queria passar, não o que você pensou e sim o que esperado pela atmosfera do anime. Esse anime pode ter cido não tão bom hoje para você, porém, amanhã você pode ter uma nova leitura outro entendimento, basta apenas ver o brilho que um anime tem, profundar e não superficial, precisa emergir, sentir ele, o que o autor quer passar, quem são os personagens, bom, assim me senti, um texto vago. Parece que conversei com um amigo que gosta de um tipo especifico de anime, se for parecido para ele está se foi fora do comum, é ruim pra péssimo. Minha intenção não foi ser desrespeitosa mas, gostaria de ler e pensar não justificar, e não rebater. Pensar.

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    1. O texto não é escrito como resumo, então, quando afirmo que alguma coisa é “desconhecida”, eu falo do ponto de partida da história, não o que é revelado com o tempo (já que isso seria spoiler).

      O mangá já acabou, e já li, e não tem nada de tão excepcional no que acontece; pior, continuou incorrendo em uma montanha cada vez maior de clichês de harém e humor barato.

      Diferente do anime, o mangá não sofre dos fins abruptos e, como prova disso, os episódios finais das temporadas são muito enfeitados se comparados aos acontecimentos do mangá, exatamente para ter alguma sensação de fechamento para algo que não fechou. É um remendo no roteiro – isso não é de todo ruim, pior seria se não tivesse, mas é um truque para dar uma pausa no que não devia ter parado.

      A considerar a possibilidade de que a terceira temporada nunca seja feita, talvez a história nunca tenha um desfecho sem uma lida do mangá. Fato até comum em animações, mas ainda indesejado.

      Tem muita coisa interessante sim, vale dizer, e a arte do mangá é muito bonita (embora talvez um pouco confusa). Escrevi no texto que é uma “boa viagem”. E é sim. Mas ela não entrega tudo que poderia. Não é necessariamente um demérito; Sidonia tinha um potencial excelente, mas não entregou tudo.

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