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[ATUALIZADO | 19/12/2014] Comentário sobre a segunda temporada ao final do texto.


As influências literárias e filosóficas de Psycho-Pass certamente não deixam a desejar. Pena que o animê não deixa de mencioná-las — alguém devia ter informado aos responsáveis que o segredo da criatividade está em esconder as influências. Mas até o nome de Philip K. Dick, autor de The Minority Report, não deixa de ser mencionado. E se você tem uma ideia sobre o que se trata Minority Report, você tem uma ideia sobre Psycho-Pass.

No mundo de Psycho-Pass, todas as pessoas têm embutido um dispositivo chamado de Psycho-Pass (surpresa!). Ele monitora a personalidade das pessoas e atribui a elas uma cor, que é constantemente lida por outros aparelhos espalhados por toda a cidade. Esse conjunto de aparelhos e mais um supercomputador do governo formam o Sybil System. Pessoas cuja cor da personalidade for imprópria são “convidadas” a realizar “tratamento”.

A saúde mental é colorida em Psycho-Pass.

A saúde mental é colorida em Psycho-Pass.

O Sybil também é capaz de atribuir um número chamado de “coeficiente de crime” a cada indivíduo. Esse número requer uma análise específica do supercomputador, mas a polícia — na qual trabalha nossa protagonista Tsunemori Akane — detém armas falantes chamadas de Dominators. Basta apontar a arma para uma pessoa e imediatamente o coeficiente de crime do indivíduo será informado.

A arma só funciona caso o coeficiente exceda um valor predeterminado e somente se o valor for muito alto a arma agirá de forma letal. Normalmente, o disparo é apenas paralisante.

Para evitar que os próprios policiais tenham a personalidade comprometida pelo trabalho, pessoas que já foram consideradas “criminosos em potencial” pelo sistema são contratadas para fazer o trabalho sujo. Eles são chamados de Enforcers. Para inspetores como Akane, resta apenas o trabalho de supervisão.

Enredo

A maior parte da história envolve a obsessão de Kougami Shinya, um Enforcer, com um criminoso conhecido apenas como Makishima. Makishima teria sido o responsável pela morte de um antigo companheiro de Shinya – algo que ocorreu antes da protagonista entrar para o departamento de polícia.

Paralelamente, Psycho-Pass explora as circunstâncias de um mundo em que tudo é decidido por uma máquina, onde pessoas falam de “beleza de saúde mental” como falam de beleza do corpo, onde um equívoco do sistema deixa todos em dúvida a respeito do que é certo e errado, e onde não existe mais meio algum de lidar com exceções.

Igualmente notório é o desenvolvimento da personagem principal. Se no primeiro episódio ela aparece como fraca, incapaz e irresoluta, essas características vão mudando conforme ela perde a inocência a respeito de tudo. Boa parte do que aprendemos sobre o mundo de Psycho-Pass ocorre pelos olhos de Akane.

As lições chegam recheadas de ideias filosóficas e literárias. Max Weber, Foucault, Rousseau são alguns dos citados nominalmente. Orwell, Gibson e o (já mencionado)  Philip K. Dick também não escapam. Ainda restam, claro, outras ideias que “carecem de fontes”. Infelizmente, isso faz com que os diálogos pareçam um pouco forçados — afinal, estes são policiais ou professores de sociologia? Não deixam, porém, de analisar corretamente aquilo que se passa.

Os Enforcers secundários de Psycho-Pass. Não parecem normais?

Os Enforcers secundários de Psycho-Pass. Não parecem normais?

Psycho-Pass peca na subutilização dos personagens secundários. Um deles é destaque em um único episódio e basicamente esquecido no resto. É bem verdade que eles são secundários, mas nem por isso são apenas ferramentas do protagonista.

Outro problema é o da muleta: Shinya, o segundo protagonista, é inteligente demais, forte demais, aparentemente capaz de resolver qualquer coisa. E o roteiro se apoia nele diversas vezes para achar uma forma de seguir adiante.

Animação e ritmo

A série conseguiu manter um ritmo excelente nos 22 episódios. Diferente do mal que já atormentou outras séries policiais (Monster, por exemplo), não parece que há algum momento em que somos obrigados a engolir uma fuga idiota do antagonista. As coisas realmente aconteceram no ritmo que podiam acontecer.

Psycho-Pass é violento — nem tanto no sentido sanguinário da coisa (embora corpos saibam explodir), mas no que de fato acontece na tela. É simplesmente cruel. Em uma cena, por exemplo, um taco de beisebol é colocado dentro da boca de uma pessoa, e um soco é dado na outra ponta do taco. Fica para a imaginação o que aconteceu com o sujeito.

Todas as lutas e ações estão bem animadas, sem muitos atalhos (embora conte com um eventual slow motion pra alongar a cena), mas também sem exageros.

Quanto à arte, não há nada de especialmente relevante, mas ela conseguiu manter sem dificuldade o clima de drama policial, não diferente de Monster ou de Witch Hunter Robin (que era excelente nesse quesito, especialmente para o ano de 2002).

Os protagonistas: inspetora Akane e o sempre disposto e hospitalizado Shinya.

Os protagonistas: inspetora Akane e o sempre disposto e hospitalizado Shinya.

Música

Alguém acordou muito iluminado quando fez as escolhas de abertura e encerramento de Psycho-Pass.

A primeira abertura é Abnormalize, da banda Rin Toshite Shigure (凛として時雨 — Ling Tosite Sigure, na romanização adotada pela banda). Representantes do rock barulhento e criativo que deriva da obsessão por punk que existe lá no Japão, não é o tipo de música para todo momento ou para todo mundo, mas é o tipo de som que raramente se ouve em qualquer lugar, muito menos em animês.

A segunda abertura é Out of Control da Nothing’s Carved in Stone, supergrupo[1. Não é adjetivo. É termo específico para bandas formadas por membros de outras bandas.] formado por membros do Straightener (baixo), Ellegarden (guitarra), Abstract Mash (voz). Mais fácil de ouvir que a anterior, Nothing’s Carved in Stone ainda entrega um rock interessante e que tem escapado de uma atenção maior.

Já o segundo encerramento é uma composição de Ryo (Supercell), cuja lista de trabalhos já está começando a ficar um pouco longa para listar. Nesse trabalho, a música é creditada ao grupo “EGOIST”.

A trilha sonora em si faz seu trabalho, mas passa a maior parte do tempo despercebida. Seria muito bom se aparecesse uma trilha marcante como Robin, mas infelizmente isso não aconteceu.

O suficiente e nada mais

Há boatos de que, se as vendas do DVD forem boas, Psycho-Pass pode ter uma segunda temporada. Não tenho certeza de que isso é uma boa coisa — Psycho-Pass termina bem. Só há uma coisa que vejo que uma segunda temporada poderia entregar, e não vejo como ela poderia entregar o que precisa.

Isso é um mérito do Psycho-Pass, tal como ele já existe, sem emendas e remendos. Está tudo aqui. E vale a pena ver, embora não há computador que possa garantir que você vá gostar.


Psycho-Pass 2

Adicionado em 19/12/2014

A segunda temporada de Psycho-Pass tornou-se realidade e terminou com 11 episódios, ou seja, tem a metade do tamanho da primeira. Tudo que poderiam ter feito de errado na segunda temporada foi evitado: a história não continua a trama da primeira temporada. Em vez disso, cria-se uma nova complicação. O molde é parecido, mas também é diferente o bastante para prender a atenção.

Como dito na resenha acima, o primeiro Psycho-Pass terminou de verdade. Não havia nada para se acrescentar. O que a segunda temporada pega de emprestado são o universo e os personagens.

A filosofia está ausente nos primeiros episódios, mas volta mais ao final e de maneira bem menos forçada — com mais propósito, portanto. A filosofia não mais pertence a todos como na primeira temporada, o que a torna menos pedante e mais fácil de digerir. As questões cibernéticas são substituídas por questões orgânicas; o indivíduo foi trocado pelo coletivo.

A história tem seus furos, entre eles o antagonista excessivamente genial: ele é mestre de hacking, de hologramas e de química médica, mas só brevemente temos alguma noção de quem pode estar ajudando-o. Em outra situação, temos equipamentos de teste usando munição real.

Por outro lado, não temos mais um único mocinho-muleta como na primeira temporada. Em vez disso, temos uma trama com mais participantes e informações novas vindo de vários personagens.

Com certeza vale assistir para quem viu a primeira temporada. Para quem não viu, os 11 episódios não fornecem informações suficientes sobre o universo de Psycho-Pass, o que pode deixar muita coisa sem explicações adequadas. Mas pular para a segunda temporada não é algo inteligente de se fazer, não é mesmo?

Ficha Técnica conheça nosso sistema de notas
Psycho-Pass Título Psycho-Pass Nota
Direção Naoyoshi Shiotani 8.3
Roteiro Gen Urobuchi Grau
Compositor Yugo Kanno A
Estúdio Production I.G
Lançamento 12 de Outubro de 2012 – 22 de março de 2013 (JP-TV)
Duração 33 * 24m

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

One Comment

  1. Acho legal quando você assume as influências. Claro, o plágio descarado vende mais (leia o Rei Leão), mas também você elimina uma provável fonte de críticas quando assume a inspiração.

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