É uma caixa com um X, realmente. (Divulgação)

É uma caixa com um X, realmente. (Divulgação)

Eu odiava computadores quando criança. Só o que me interessava em um computador eram os jogos, e jogar no computador significava passar por um processo de instalação, aguardar, fazer embaixadinha com requerimentos técnicos que eu não compreendia direito e, quem sabe, jogar. Enquanto isso, o videogame me proporcionava uma experiência de coloque-a-fita-e-jogue. O máximo de dor de cabeça que eu tinha era precisar de uns soprões nos contatos.

Foi fácil testemunhar, ao passar dos anos, a “PCeirização” dos videogames. O primeiro vilão foi o “Now loading” do Playstation, mas isso no máximo testava nossa paciência, e às vezes até complementava a experiência do jogo, como no caso do Resident Evil, que usava o tempo de carregamento para animar a abertura de portas ou uma subida de escadas, aumentando o suspense.

A geração que ainda permanece “atual” — essa do Playstation 3 e do Xbox 360 — já é quase irreconhecível para quem viveu a simplicidade das décadas de 80 e 90. Alguns jogos precisam ser instalados, outros precisam ser atualizados. E o pior: você nem pode continuar jogando enquanto o videogame escova seus próprios bits.

E se você estiver conectado à internet? O Playstation 3 vai fazer questão de lembrá-lo que há uma atualização para seu jogo, e aquela ideia de jogar uma partida rápida de 10 minutos na madrugada vira o sono antecipado enquanto o console baixa mais 500 MB de conteúdo que não vai mudar aparentemente nada.

A guerra pela sala de estar

A visão da Nintendo para o Wii é de que ele deveria fazer parte da sala de estar, não ficar escondido no quarto do filho. É o que justifica, por exemplo, o formato de controle remoto do Wiimote. Essa estratégia deu muito certo, financeiramente falando, enquanto as divisões de games da Microsoft e da Sony sangravam dinheiro a cada unidade vendida.

O Xbox One, evidentemente, quer copiar essa estratégia. Ele quer ser seu companheiro para assistir TV, e, sendo a Microsoft, isso me faz lembrar o Clippy do Office. Porque já vamos começar bem: o Xbox One não tem controle remoto. A Microsoft quer que seja usado controles de voz. Mas o reconhecimento de idioma não funciona bem sempre, e não vai estar disponível para alguns idiomas. Já deu para lembrar dos seus traumas com o Clippy?

Ao contrário do Wii, o Xbox One consegue ser grande, desajeitado. Em meio a uma tendência de redução do tamanho das coisas e o próprio design minimalista adotado pela Microsoft no Windows 8, ele tem o formato de um videocassete — só falta o relógio com a hora errada para dar o toque final.

No aspecto dos jogos, o Xbox One é um PC completo. Tem processador de computador, placa  de vídeo de computador, um sistema de computador. E também exige a instalação completa dos jogos, o que pede o uso de mecanismos que impedem que um mesmo disco seja usado em dois aparelhos ao mesmo tempo. Para onde vai aquela experiência de levar um jogo na casa do seu amigo?

Onde fica a sala de estar?

O Xbox One não se importa com aspectos do “mundo físico”. Quando se fala que o console é “mais social”, o que se quer dizer é que ele integra melhor com Facebook, Skype… As interações reais são, de fato, sacrificadas em nome destas. Entenda bem: o console não tem um controle remoto — ele quer ser controlado por voz em um local onde se conversa, ou então com o próprio controle do console.

A Microsoft não teve tato para fazer a leitura do ambiente em que a “caixa” vai ser usada.

Também foi ignorada a possibilidade de compartilhar jogos fisicamente. Mesmo que essa possibilidade seja criada, ainda há uma barreira de diversos minutos até o fim da “instalação” de cada jogo. O Xbox One também quer conexão com a internet uma vez ao dia. Esqueça a ideia de usá-lo em qualquer ambiente que não esteja coberto por espectro de Wi-Fi.

Por que, diante de tamanho desprezo por interações físicas, o Xbox One quer ocupar seu espaço na sala de estar — um lugar que representa, justamente, a família e a interação com amigos?

Querendo fazer tudo (“One”), esse console não consegue ser mais potente e flexível do que um PC, e com meros 500 GB de disco rígido, compartilhados com jogos e não expansíveis (sem uma maravilha de disco externo, igualmente lindo na sala de estar), também não consegue substituir um set-top box.

A Microsoft tem até o lançamento do console para achar realmente qual é o lugar deste Xbox, em todos os sentidos.

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

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