Grande companheiro de quem não dispunha de uma TV com conector de áudio e vídeo. (Foto: Alphathon/Creative Commons)

Companheiro de quem não dispunha de conector AV. (Foto: Alphathon/Creative Commons)

Se você jogava videogame na década de 80 e 90 e não ouviu essa, você tem sorte. Eis o mito: videogame estraga a TV. Exigir explicação sobre como “estraga” é pedir demais; como todo mito, ele tem seus dogmas que, para não perderem a magia, devem permanecer livres de qualquer questionamento. Mas não, videogames não estragam a TV.

Quero, porém, compartilhar algumas ideias sobre como esse mito se perpetuou e por que ele foi criado. Posso dizer que no meu caso não foi mera desculpa (inclusive fui beneficiado, como explicarei adiante).

Se você teve azar, o mito foi utilizado para impedir que você jogasse tanto videogame quanto gostaria – e lá se foi o tempo que poderia ter sido bem utilizado no International Superstar Soccer levando uma bolada na cara na vida real; ou que poderia ter sido usado em aulas de inglês efetivas com Final Fantasy.

Mas se você teve sorte, como eu tive (parcialmente), o mito justificou o uso de uma TV só para o videogame. Perfeito para jogar sem que alguém reclamasse que é hora da novela/do jogo (do tipo que não interessa tanto)/”da notícia”. Eis aí uma hipótese: que alguma criança muito esperta inventou o mito para ter um televisor exclusivo para o videogame. Genial.

A segunda hipótese é que o mito foi inventado por alguma assistência técnica para não prestar o serviço de garantia. A terceira e última hipótese é que o mito surgiu de pais e mães que estavam preocupados com o futuro do filho que passava tempo demais com os joguinhos.

De qualquer forma, a mentira, que à época não dispunha do Facebook, percorreu o Brasil com suas pernas longas e tonificadas — pois acredito mesmo que a mentira anda rápido demais para ter perna curta, como dizem. E chegou, assim, aos lares de milhares de donos de videogame, apresentando um obstáculo nível Nintendo-Hard para nossas vidas.

Para estragar, basta funcionar

Mas como o mito conseguiu se perpetuar? Ora, ele traz uma profecia: que a TV ligada ao videogame irá estragar. E essa é uma profecia muito vantajosa. Explico: todas as TVs, cedo ou tarde, estragam. Tinha tudo para acertar, portanto.

As estatísticas também colaboraram. TVs velhas costumam estragar mais. E como beneficiário do mito, digo qual foi o resultado para mim: eu tinha uma TV só para o videogame, mas também era a TV mais velha disponível. Ou seja, também era a que mais estragava. O mito, assim como tantos outros mitos, servia perfeitamente para explicar o inexplicável. “Mas como uma TV, que funcionou durante tantos anos, de repente estraga?” É o videogame, lógico.

Traumas

Estar sempre com uma TV velha para o videogame deixou suas marcas. Duas letras, em especial, me aterrorizam: “RF”. Como as TVs que utilizei não dispunham de entrada A/V, até mesmo meu Dreamcast teve de ser ligado com um adaptador RF.

E mais: a entrada da antena não era essa moderna. Era de rosca ou parafuso, em que você abria, colocava um ganchinho, e depois fechava.

Esse conector de ganchinhos, que estava disponível no Atari, ligava meu Dreamcast. (Foto: Best Electronics)

Esse conector de ganchinhos, que estava disponível no Atari, ligava meu Dreamcast. (Foto: Best Electronics)

No último “upgrade” antes do HDMI, para uma TV de 14″ com A/V, o som era mono. E quanta frustração ao perceber que sons estão faltando porque a configuração do jogo não foi modificada. Até hoje ainda entro nas configurações de áudio para ver o que tem por lá. No Wii, por exemplo, “Mono” ainda é uma opção.

A grande questão

E o que de fato motivou esse texto a ser escrito, é que quero saber: quanta gente vai cair aqui, ainda hoje, procurando no Google se videogame estraga a TV? Então deixo alguns auxílios para os futuros pesquisadores: o Playstation 3 estraga a televisão? O Xbox estraga a TV? O Wii estraga a TV? A Nintendo tem parceria com fabricantes para estragar TVs?

Não, meu caro leitor. Videogame é só uma fonte de imagem para TV. E o que estraga algo – inclusive a TV – é o uso do que está funcionando.

Falando sério

Um problema conhecido de televisores com videogames é o efeito de “burn-in”, quando uma imagem fica “congelada” na tela como um “fantasma”. Esse problema só existia em televisores de tubo muito antigos (monocráticos). Em telas mais modernas – as que de fato viram a explosão dos videogames nas décadas de 80 e 90 -, esse problema já era praticamente inexistente.

O burn-in só voltou com as TVs de Plasma, mas nem de longe os videogames eram os únicos culpados: os logos identificadores das emissoras, que ficam sempre no canto da tela, também ficaram “queimados” em algumas TVs.


Imagens do Universal Switch Box do Atari usadas com permissão da Best Electronics.
Agradecimentos ao Murilo Molina pela informação sobre balun.

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

One Comment

  1. Nos_vemos_no_front_de_batalha 31/12/2013 às 14:29

    Legal o texto! Lembro muito bem, como se fosse hoje desse mito. Ass: Soldier Front

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