A Microsoft arranjou para si um grande problema com o Windows Phone.

Tenho um Lumia 900 em mãos não faz uma semana e, embora eu tivesse visto diversos vídeos do Windows Phone, foi só usando ele um pouco mais que ficou claro um dos maiores desafios da Microsoft na plataforma.

O design minimalista.

Trata-se de um desafio imposto pela própria Microsoft. O minimalismo é caracterizado pela eliminação de qualquer elemento dispensável, obtendo o máximo de efeito comunicativo (por parte do design) com o mínimo de esforço. Ou seja, é um design extremamente eficiente.

Dito de outro modo, o design minimalista é aquele em que o conteúdo é o design. Ou seja, o próprio texto (quando houver) deve ser parte do design (eis a mágica dos hyperlinks), e imagens, quando existirem, não devem necessitar de rótulos para serem entendidas. E é por isso que mesmo os ícones mais obscuros da interface do Windows Phone (que são quase todos) só são descritos com rótulos quando se aperta no botão “…” da interface.

IE5: ícones não dispensavam rótulos.

IE5: ícones não dispensavam rótulos.

Não há nenhum problema maior com designs minimalistas. Exceto um: eles são difíceis de ficarem bem feitos. Quanto menos trabalho um design minimalista deu para quem o fez, bem mais trabalho ele vai dar para quem o for utilizar.

É fácil quando se tem pouca informação para organizar – não é preciso argumentar sobre o minimalismo do design de uma página de livro. Em blogs na web, há designs minimalistas e outros nem tanto (gosto bastante do blog do Ryan Tomayko – toda a navegação é também conteúdo).

Da mesma forma, o minimalismo funciona muito bem no Windows Phone. Ou quase: aplicativos de terceiros têm muita dificuldade em compreender o que é esse minimalismo, e insistem em colocar linhas, quadros e cores quando não há necessidade.

Algumas funções do telefone também podem ficar no desconhecimento até que se leia um guia, a ajuda ou algo assim. Não há nada na tela que indique como as coisas funcionam, nem mesmo uma vez. (Quem lembra dos vários avisos de “dá uma conferida nisso e nisso e nisso…” depois da instalação do Windows XP?)

Mas até para a Microsoft fica difícil manter o minimalismo quando você usa, por exemplo, os recursos da rede Microsoft, como o Outlook.com.

Qual o problema com essa página? Ela é horrenda.

Qual o problema dessa página? Eu digo que é horrenda, mas, fora isso, pode não ser intuitiva.

É possível saber – só olhando para a interface do Outlook.com – que o tamanho das colunas é configurável? Que você pode clicar e arrastar para deixá-las do tamanho que quiser? Perceba que não existe nenhum sinal visual para isso e a única divisória é a cor de fundo. É algo que você simplesmente deve concluir passando o mouse por cima delas e vendo o cursor mudar. Não há outra indicação e, diferente de aplicativos no PC, ninguém está acostumado com colunas móveis na web.

Agora imagine quando você estiver em um celular e não houver cursor algum. Você simplesmente fica se perguntando se tem algum gesto, algum toque, que pode fazer mudar as coisas que estão na tela. Você pode se ver apertando em um texto inocente que não é botão, imaginando gestos multitoque que fariam aquilo que você quer, ou simplesmente aceitando que algo realmente não existe.

Outro possível problema é a impressão inicial passada pelo minimalismo — a de que eu não tenho recurso algum, já que nada é apresentado na tela. Pelo minimalismo, os recursos só devem ser apresentados pelo conteúdo, quando necessários. Mas se eles não forem muito bem apresentados, podem passar despercebidos.

Eis a dificuldade do minimalismo.

A Microsoft resolveu dificultar ainda mais a própria vida querendo fazer do minimalismo um padrão para seus softwares. Desenvolvedoras que usam o Visual Studio já protestaram contra a decisão pelo uso de letras maiúsculas em menus da interface — uma decisão que tem tudo a ver com a falta de opções que é criada quando se decide por uma interface minimalista em um lugar que exige o uso de letras maiúsculas (como os títulos de tela do Windows Phone), e em seguida se transpõe essa decisão para software muito mais ricos em recursos.

Se é uma missão impossível, não faço ideia. Acredito que, em interfaces de computador, é a primeira vez que algo nessa escala está sendo feito. Reforça-se aqui que a Apple não tem uma interface homogênea para desktops e celulares, e que o Google nem mesmo controla a interface de todos os celulares com Android, e que o Chrome OS é basicamente um navegador web, que vai interagir com interfaces de terceiros que seguem suas próprias regras.

A Microsoft está solitária nessa empreitada. Resta desejar boa sorte.

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Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

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