O céu nunca faz feio em Ef. Nunca.

O céu nunca faz feio em Ef. Nunca.

Friedrich Nietzsche escreveu “humano, demasiado humano”. “Ef” é uma série que pode ser descrita como “animê, demasiado animê”. No bom sentido.

Enquanto muitas animações tentam imitar efeitos do cinema, como planos fora de foco, Ef tira proveito do que só a animação pode proporcionar: efeitos surrealistas, trocas rápidas de enquadramento, cores vibrantes, efeitos luminosos e ângulos impossíveis. Tudo isso junto, claro, de um enredo que envolve escola, jovens, doenças incuráveis, órfãos, uma igreja cristã, etc. Típico.

Ok, talvez nem tanto.

Mizuki: Faz aquele sinal e diga ‘que deus a abençoe’

Yu (fazendo o sinal da cruz): Que a Força esteja com você.

Mizuki: Que isso?

Yu: Uma coisa bem mais decente do que deus.

A origem do enredo do animê está em Ef – a fairy tale of the two. (assim mesmo, com o ponto no final), que é mais um “bishoujo game”, um romance-na-tela-do-computador que serve para tornar as cenas gráficas mais… gráficas. Sim, é uma história que se aproveita dos aspectos visuais para incluir elementos de pornografia, todos, claro, excluídos do animê, porque são desnecessários (é coisa comum no Japão incluir elementos de pornografia em histórias elaboradas; aqui no ocidente a única manifestação disso parece estar na literatura, e conteúdo erótico fica confinado em seu próprio espaço, como se não fosse parte da vida humana).

Mas o que torna o animê de Ef impressionante não é seu enredo, embora ele seja decente e tenha seus momentos. A beleza de Ef está em como a história é contada por meio da animação ousada do estúdio Shaft e do roteiro de Katsuhiko Takayama com a direção de Shin Ōnuma, que encontrou maneiras de animar os longos diálogos do animê, ora com cartas, ora com texto na tela, bem como os cortes rápidos dos quadros, que variam cores, ora mostram apenas silhuetas, enfim.

Ef é uma animação e não finge ser outra coisa. E ao afirmar continuamente de que se trata de uma animação, ela consegue ser criativa e ousada, e usar todos os recursos a seu dispor para entregar a história com maestria.

Milagres não existem neste mundo. Só existem acidentes, inevitabilidades e as ações que as pessoas realizam.
Yu Himura

A história fez sua parte colaborando com uma leve excentricidade, partindo vez ou outra para o sobrenatural e para elementos pouco comuns em animações do Japão (como a presença constante de uma igreja cristã) – elementos que de certa forma suavizam o impacto do caos permanente na tela. Se tudo é um pouco esquisito, o que poderia ser muito esquisito já não parece fora do lugar.

Importante deixar claro que, apesar do título, estou falando aqui das duas temporadas de Ef: A Tale of Memories e A Tale of Melodies.

Enredo

Ef se passa em duas cidades chamadas Otowa – uma no Japão e outra na Austrália. Na cidade japonesa, um terremoto tirou a vida de muitas pessoas, entre os quais as famílias de dois dos personagens.

Já dissemos que o céu nunca faz feio?

Renji e Chihiro

A primeira temporada mostra dois relacionamentos. O primeiro é o do estudante Renji Aso, que não tem certeza do que fazer da vida, com Chihiro Shindo, uma menina que sofre de uma doença de memória que a impede de lembrar dos acontecimentos depois de passadas algumas horas. O outro relacionamento é o de Hiro Hirono, um estudante e (precoce) autor de mangás, que está em um triângulo amoroso envolvendo Miyako Miyamura e Kei Shindo.

A segunda temporada conta o relacionamento de Shuichi Kuze com Mizuki Hayama e de Yu Himura com Yuko Amamiya. Esta última história acontece no passado e mostra a relação que existe entre todos os personagens.

Nada de especial, a princípio. Mas a história tem complicações interessantes, e termina com dignidade.

Música

Este talvez seja o melhor trabalho de Tenmon, colaborador frequente de Makoto Shinkai (que fez somente a abertura do jogo e não se envolveu com o animê). A abertura da primeira temporada dá uma ideia boa do que de fato esperar desse animê.

Algumas das melhores e mais impactantes faixas são variações do tema principal. Mas não pense que há falta de músicas. Ef conta com uma trilha sonora de 2 discos para cada temporada de 12 episódios – 2 horas e 20 minutos de música para 4 horas de animação.

Composição de quadros surreais passam a sensação certa e prendem o olho na tela.

Composição de quadros surreais passam a sensação certa e prendem o olho na tela.

Surpresas

Nada em Ef parece fora do lugar, embora – se você for analisar – cada mínimo detalhe de cada ponto da história foi muito bem pensado sobre como seria colocado na tela. Essa atenção ao detalhe é incomum. Em vez de se contentar apenas com uma bela animação, Ef não tem vergonha de usar as linhas mais simples possíveis para, por exemplo, animar um caminhar apenas com as pegadas na neve.

O impacto da história de Ef é bastante variável. As lições sobre vida, morte, solidão e espiritualidade tentam, sim, trazer mensagens importantes, mas elas são, talvez, forçadas um pouco demais, e não muito incomuns dentro das animações japonesas. O “Engrish” dos textos na tela também incomoda às vezes.

Fica igualmente no ar a questão sobre qual temporada é melhor. Embora eu prefira a segunda, também acredito que ela não sobrevive sem a primeira. Memories e Melodies são um conjunto, separados mais pelos jogos (que são dois) do que de fato por serem animes diferentes. Não são.

Ef é, no entanto, um atestado do que o formato de animação pode ser – diferente do 3D, diferente do live-action. Ef tem personalidade.

Se você não gosta de animes e procura um motivo para começar a assistir, Ef é um excelente ponto de partida.

Vale qualquer efeito, ora minimalista, ora surrealista. É um caos organizado.

Vale qualquer efeito, ora minimalista, ora surrealista, no caos organizado de Ef.

Ficha Técnica
Título Ef -a tale of memories-
Ef -a tale of melodies-
Nota?
Direção Shin Ōnuma 9.5
Roteiro Katsuhiko Takayama Grau?
Compositor Tenmon
Eiichiro Yanagi
S
Estúdio Shaft
Lançamento (JP)
  • Ef: A Tale of Memories (TV)
    7 de outubro de 2007 — 22 de dezembro de 2007
  • Ef: A Tale of Melodies (TV)
    7 de outubro de 2008 — 23 de dezembro de 2008
Lançamento (US)
  • Ef: A Tale of Memories
    31 de janeiro de 2012 (DVD)
Duração 12 x 24m (Memories)
12 x 24m (Melodies)
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Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

2 comentários

  1. Ok.. sei q ja faz um bom tempo do post, mas nao me contentaria se nao comentasse. Bom, primeiro quero agradecer, pois eh triste saber q sao poucos os brasileiros que apreciam uma obra como esta. Sempre faço uma pesquisa rapida sobre algum trabalho que me chamou a atencao e quase sempre nunca encontro nada, nao em br…. Mais aqui está a prova que ainda podemos avançar.
    Agora, sem muito o que dizer e ainda com um nó na garganta, posso dizer com certeza que este foi um dos melhores animes que ja assisti. Gostei da forma como a historia se desenvolveu, o entrosamento entre os personagens e sim, as belas paisagens e traços de tirar o folego… (lembra muito b. 5 Centimeter) …
    Citou em determinado trecho que as temporadas nao sobreviam sozinhas.. assim como os personagens. Acredito que o maior trunfo desta serie eh a convivencia entre eles.. as ligacoes que foram se mostrando, algumas surpresas e outras nao….
    Enfim… sempre aquele sentimento amargo de acabou… mas estarei na busca de outra obra prima, pois para mim, o que se faz com o coracao, tambem sera sentido com o coracao.. e esta serie de anime eh prova fiel…
    Nao sei se o site ainda esta ativo.. mas ficarei feliz se o(a) autor(a) visualizar este comentario…
    Um abraco.. Murilo Nucci.

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  2. IKARO H SOARES 18/09/2015 às 15:36

    Coisa de BICHA

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