Mangás e animês têm uma recepção até boa aqui no ocidente, mas um gênero que normalmente passa despercebido é o de visual novels (VN) — que são basicamente livros interativos e com música, que você pode “jogar” (ler, na verdade) no computador, em um videogame ou no DVD. Ever17 –the out of infinity– é um dos poucos VNs a receber lançamento oficial nos Estados Unidos, e o público não poderia pedir por algo melhor.

Capa da edição americana

Na superfície, Ever17 conta a história de um grupo de pessoas presas em LeMU — um parque de diversões construído abaixo de uma ilha artificial no oceano. O grupo precisa lidar com problemas como a comida, falta de energia e a constante ameaça do colapso de LeMU devido à pressão da água — que destruiria o complexo em 119 horas –, enquanto tenta descobrir as causas do acidente e por que não recebem ajuda para escapar.

Se você não sabe como é um visual novel, é basicamente um RPG japonês, mas sem nenhum elemento de batalha ou movimentação. Tudo é feito apenas com diálogo e escolhas na tela.

Mais importante: Ever17 é uma história inteligentíssima. Acerta em cheio no que se propõe: na ficção científica, nos mistérios, nas informações que se encaixam. Tudo temperado com uma filosofia bastante próxima ao tema da série, com uso correto (na maioria das vezes[1. A tradução oficial da Hirameki que errou às vezes. “Teste de Turing” foi escrito como “teste de tooling”. Existe um script consertado por fãs disponível na web.]) de termos científicos e de informática[2. Fiquei emocionado quando uma personagem descreveu corretamente o que era um ‘hashing’ de uma senha.], com uma apresentação esperta e calculada de cada informação, para que você, ao obter o quinto (e correto) final, veja como as coisas realmente aconteceram[3. Tudo o que Lost tentou ser e fracassou.].

Menos importante: Ever17 faz parte da série “Infinity” da desenvolvedora KID, da qual também fazem parte Never7, Remember11 e 12Riven, mas você não precisa de nenhum deles para entender Ever17. Como visual novels não são apreciados por aqui, a KID é provavelmente mais conhecida por aqui por ter desenvolvido o (péssimo) jogo do Pepsiman para Playstation.

Não posso ir mais longe, porque resenhar Ever17 como um jogo não faz muito sentido. É um livro. Só a rota final conta com mais de 110 mil palavras para serem lidas. O texto descreve os ambientes e as reações dos personagens com o mesmo detalhamento das imagens — ou até melhor do que elas.

Som e música

A música, de Takeshi Abo (Steins;Gate) é adequada, mas VNs não são notórios por suas trilhas sonoras. Ou melhor, as trilhas de VN são notórias por seu uso de sintetizadores de má qualidade e monotonia. Claro que sempre há algumas joias. Em Ever17, fica por conta do tema principal: Karma. Sendo um jogo de 2002, o som ainda é ruim. Mas existe uma versão mais nova do game, lançada em 2011 para Xbox 360, com versões novas das músicas. Confira a versão atualizada de Karma:

Não há o que reclamar do excelente trabalhado de dublagem, já que a versão americana manteve as vozes japonesas.

Animação

Para um jogo feito em 2002, a animação é bem trabalhada. Os desenhos dos personagens podem ser estranhos inicialmente, no entanto — há quem definitivamente não goste. Os ambientes, por sua vez, estão muito bonitos, especialmente considerando-se a necessidade de ilustrar as atrações de um parque de diversão subaquático.

Coco Yagami na misteriosa porta Himmel em LeMU, terceiro andar (Dritte Stock)

Sem igual

Ever17 –the out of infinity– vai muito além de ser um simulador de romances (Ren’ai), uma categoria na qual muitos visual novels se encaixam. Ever17 é inteligente, faz pensar, brinca com quem vive a história (sob duas perspectivas diferentes). Quando terminei Ever17, ocorreu-me um pensamento: “devia ser um jogo”. Ora, já é um jogo — Ever17 é uma história que não faz sentido ser contada de nenhum outro jeito (que me perdoe o mangá).

O processo de como a história é construída e o jogador a recebe é tão importante quanto a própria história. Por isso, essa análise não traz spoilers. Não leia a Wikipedia. Jogue, e jogue todos os 5 finais bons (e, se quiser, emocione-se nos “bad endings” ao som de “Karma”).

Ever17, vale ressaltar, começa devagar. E é preciso ver todos os finais para apreciar a genialidade da produção. Nada é entregue de cara, mas a perseverança pelas 30 a 50 horas de leitura é muito bem recompensada. Tudo é muito profundo.

Infelizmente, nada disso conseguiu salvar a KID e a Hirameki, distribuidora do jogo nos EUA, da falência. Continuaremos com poucos visual novels sendo publicados aqui no ocidente, mas, com essa obra-prima disponível, temos menos razão para reclamar.

Ficha Técnica
Título Ever17 -the out of infinity- Nota?
Direção Takumi Nakazawa 9.5
Roteiro Kotaro Uchikoshi / Takumi Nakazawa Grau?
Compositor Takeshi Abo S
Desenvolvedora KID
Lançamento (JP) 29 de Agosto de 2002 (PS2)
1° de Dezembro de 2011 (Xbox 360, Remake da 5pb)
Lançamento (US) 20 de Dezembro de 2005 (PC)
Plataformas Dreamcast, PS2, PC, PSP, Xbox 360 (remake)
Anúncios

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.