Retratação do Comiket, chamado de Comifes, no animê Genshiken. Quadrinhos à venda são ‘doujinshi’.

Quando se pensa em mangá ou animê é fácil pensar em títulos populares como Dragon Ball, Naruto ou Sakura Card Captor. Mas o Japão também conta com sua “cultura alternativa” ou “independente” e, além do que já conhecemos no ocidente – como música independente, livros publicados pelo próprio autor, etc, o Japão ainda conta com mais uma: a “doujin” ou dōjin.

Não pretendo cobrir aqui extensamente o que é doujin. Ao contrário, estou escrevendo porque acho que a página da Wikipédia faz atualmente um péssimo trabalho para explicar de forma sintética do que se trata, então vamos direto ao ponto:

Na maioria dos casos, quando se fala em “doujinshi”, o material em questão é uma história em quadrinhos feita e publicada por fãs, usando personagens de uma série popular (inclusive com direito a misturar séries sem relação entre si) em situações eróticas/pornográficas.

Não seria totalmente errado chamar doujinshi de “mangá independente”, mas o termo “mangá” costuma ser reservado para trabalhos profissionais, sejam eles eróticos (hentai) ou não. Logo, é bom não confundir uma coisa com a outra. O doujin normalmente não tem objetivo de gerar lucro ao desenvolvedor, logo, não equivale a um trabalho profissional.

Isso difere de outras produções ditas “independentes”, que normalmente não são um mero hobby e acompanham trabalho de mídia e etc para divulgar algo. O doujinshi, por normalmente se tratar de um trabalho derivado, não pode ser “divulgado”.

A quantidade de produções de que se fala aqui é enorme, no entanto elas costumam ser vendidas em quantidades limitadíssimas e em apenas um único dia em uma das convenções de quadrinhos do Japão, principalmente a Comiket. Essa publicação limitada, junto aos modelos de personagens normalmente distorcidos, contribuem para a “vista grossa” que a maioria das empresas adota em relação à prática, que é ilegal por serem trabalhos derivados.

Em Genshiken, os protagonistas criam um doujinshi para ser vendido no “Comifes”, que nada mais é do que o “Comiket” com o nome trocado. O doujinshi criado, que é de uma subsérie de animê do próprio animê, jamais é exibido, justamente porque o conteúdo ali presente é erótico.

Old Home no Haibane Tachi 2, volume de doujinshi que virou animê de Yoshitoshi ABe.

Claro que nem todos os doujinshis são eróticos. Alguns artistas profissionais de mangá fizeram doujinshi. Outros iniciaram séries como um doujinshi não-erótico – caso de Haibane Renmei, de Yoshitoshi ABe.

É difícil definir doujinshi com exatidão, mas tendo a definição do que “normalmente” é – ficção criada por fãs de uma série, vendida e em quantidade limitada -, pode-se ter ideia do resto e de possíveis usos profissionais do meio.

Gêneros

Doujinshi são os quadrinhos, mas existe “música doujin”, “jogo/software doujin”, entre outros gêneros. É notável, por exemplo, que a Type-Moon, criadora da série “Fate”, começou como um círculo de doujin, até que seu jogo “Tsukihime” virou uma série de anime, possibilitando a série de filmes “Kara no Kyoukai” e todo o restante que veio em seguida.

Outro doujin game clássico é a série “Touhou“, que é um jogo no estilo shoot’em up. “Space Invaders no inferno” seria uma forma correta de descrevê-lo. O jogo é bastante popular e “bate ponto” no Comiket com novas versões desde 1996. Chegou a entrar para o livro Guinness em 2010 como “série de tiros mais prolífica feita por fãs”. Além do game, doujinshi e CDs também existem. Ele já foi mencionado em vários outros trabalhos, como na série Ef (veja o vídeo).[1. Confira outras referências a Touhou: http://en.touhouwiki.net/wiki/References_to_Touhou]

Já a doujin music nada tem a ver com a música independente normal. É um estilo específico, normalmente baseado ou influenciado por compositores de animê e videogame. Um grupo bastante conhecido que trabalha com esse gênero é o Sound Horizon. O principal compositor, Revo, chegou a lançar um single com Yuki Kajiura, compositora de diversas séries de animê.

O uso de softwares sintetizadores de voz (Vocaloid), que permitiram a compositores hobbystas incluírem voz em suas músicas, também é normalmente considerado uma forma de “doujin music” devido à ligação próxima destas produções com a cultura de anime e games. Inclusive, composições dessas pessoas (que normalmente ficam famosas no Japão por meio do site de vídeos “Nico Nico Douga”, que é o “YouTube Japonês”) foram usadas por jogos oficiais das personagens e tocadas em shows especiais em que a personagem da voz ganhou vida em um holograma.

Relevância

Não seria errado equiparar a cultura doujin do Japão com o campo de várzea para o futebol brasileiro. É o que mantém o interesse vivo, fãs engajados e revela novos talentos. Compositores e artistas surgem dessa cena ou conhecem pessoas envolvidas. Além do caso já citado da Type-Moon, no caso de softwares, o compositor “Ryo”, do Supercell, é um exemplo no ramo da música, que acabou compondo a música do animê “Black Rock Shooter” e também o encerramento de “Bakemonogatari”.

Nada disso é específico do Japão, claro. “Fan fiction” existe também por aqui, e fan fiction pornô de toda forma possível também não é nenhuma exclusividade de lá (Slash é tudo que vou dizer sobre isso). No entanto, o alcance dessas produções, com alguém disposto a fazê-las, eventos dispostos a mostrá-las e público disposto a consumi-las (e pagar relativamente caro por isso) é algo muito mais específico.

Comparemos com o Brasil, onde eventos de anime têm estandes de loja querendo vender apenas ‘industrializados’ de séries famosas e DVDs — e a diferença fica clara.

E sim, a Comic-Con, em San Diego, é grande – coisa de 130 mil pessoas, porém ainda assim sobrevive mais com gente “do ramo” do que fãs. E não vamos errar a escala: público na Comiket passa de 500 mil.

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Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

3 comentários

  1. Boa descrição xD

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  2. Felipe Muniz 14/02/2016 às 16:46

    Gostei muito do artigo. Fiquei interessado porque é o hobby do Itami, protagonista do anime Gate.

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  3. tamires naiara 16/03/2016 às 20:19

    bom o artigo ><

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