Um novo mundo, cheio de beleza e simplicidade.

Um novo mundo, cheio de beleza e simplicidade.

Confesso: assisto animações japonesas, em parte, pelas tragédias. Não porque eu exatamente goste de tragédias, mas porque saber que elas são possíveis (e não raras) dá um senso de realismo que dificilmente há em outras produções. Para os gamers, todos sabem que são poucos os jogos que têm a coragem do Final Fantasy VII para matar uma protagonista.

Aria não é uma tragédia e, mesmo assim, surpreende — e muito.

Aria (“ar”, em italiano) se passa algumas centenas de anos no futuro e conta a história de Akari Mizunashi, uma jovem que quer se tornar uma Prima Undine. Undines são mulheres que guiam turistas em gôndolas – os barcos tradicionais de Veneza, na Itália – na cidade de Neo-Venezia. Neo-Venezia é, por sua vez, a reconstrução da cidade de Veneza em Marte, que passou por um processo de transformação para ser habitável e foi renomeado para Aqua.

“Prima Undines” são as Undines que têm permissão para trabalhar. Akari, durante o animê, é uma Single (“individual”), que é o segundo estágio na graduação para Prima. O primeiro estágio é o de Pair (par). Esses nomes se referem às luvas utilizadas: uma “Pair” usa luvas nas duas mãos; uma Single usa apenas uma, e uma Prima não usa luvas.

O animê, que é composto por três temporadas, mostra o progresso de Akari durante seus treinos junto das amigas Alice CarrollAika Granzchesta. As três atuam em empresas diferentes e têm como instrutoras as mais renomadas profissionais do ramo: Alicia, Athena e Akira, respectivamente.

Note que, a partir daqui, essa análise fala da história do animê. A recomendação é de que você assista se gosta de um drama calmo, engraçado e profundo. Ou então leia mesmo assim e entenda por que Aria é um grande animê. Vale dizer que Aria é baseado em um mangá de mesmo nome – mas essa análise não fará comparativos (este que vos fala ainda não leu o mangá).

E falando em tragédia, o diretor, Jun’ichi Satō, é o mesmo que foi responsável pelo storyboard de End of Evangelion. Dito isso – e deixando claro que uma coisa nada tem a ver com a outra – vamos continuar.

Encontros e desencontros

Alice, Akari e Aika – o trio de protagonistas.

O roteiro utiliza muito diálogo e dinâmica de personagens. Não seria errado dizer que Aria é uma história sobre “ser humano”. Não há heróis, não há vilões – há apenas as dificuldades comuns a todos nós: as distâncias que vamos criando dos amigos, pessoas novas que conhecemos, outras que se vão — os laços que compõem a complicada teia da vida humana e que, de fato, fazem as coisas funcionarem.

É nesses encontros com as outras pessoas que Akari descobre coisas novas sobre Aqua, que ela acaba aproveitando em sua profissão como guia. Nas lições de vida que recebe, há meios para lidar com seus problemas cotidianos. Não há nada de espetacular. Mas, para quem prestar atenção, é fácil de ver que Aria tenta, acima de tudo, encontrar-se com quem está se abrindo para a história e nos transformar também.

Já na terceira temporada, Akari introduz os futuros episódios dizendo: “Agora, me dê a sua mão” — a mesma frase dita pelas undines para ajudar clientes a entrarem em seus barcos. Resta saber se você, realmente, está disposto a entrar nessa jornada e ouvir, ou ser o cliente chato que só pensa em dar opinião.

Como fã do gênero slice of lifedeclarado na resenha de Haibane Renmei -, a sequência de eventos em Aria não me pareceu nada tediosa. Para fãs de Naruto e afins, é bem possível que a interpretação seja a de que “nada acontece”. Nesse caso, sinto muito — muitas das maiores lições da vida parecem óbvias e bobas, mas só depois que você já as teve.

Sutileza

Que o carinho desta cidade chegue aos corações de muitas pessoas.”
— final de “the Natural”

Diz-se que uma pessoa forte não é aquela que brada sobre seus problemas. É a que resiste a eles no silêncio com um sorriso no rosto. Aria carrega essa simplicidade o tempo todo. Os personagens estão em Aqua – em Marte – em uma reconstrução de Veneza porque a verdadeira Veneza já não existe mais. Motivo? Várias partes da Terra ficaram inabitáveis.

Em nenhum momento o animê tenta impressionar mostrando imagens (possivelmente trágicas) de como está a Terra. Mas o peso dessa ausência não pode passar despercebido.

A mensagem é a de que as pessoas em Aqua têm total noção do compromisso que tem umas com as outras e com o planeta – uma reverência que Akari, ao menos, não esconde. Akari nasceu na Terra, e certamente carrega uma gratidão enorme por estar em Aqua – um planeta que simboliza a esperança humana diante de uma Terra devastada. O constante otimismo, portanto, não é infundado. Talvez isso seja um pouco mais óbvio a quem sabe japonês, que perceberá que o sobrenome de Akari (Mizunashi) significa “sem água”.

Akari se corresponde, por e-mail, com Ai, uma menina que mora na Terra (chamada de Manhome). Também sutilmente, Aria mostra essa amizade a distância e como ela é válida e real, quando, ao final da terceira temporada, Ai torna-se uma nova Pair Undine sendo treinada pela (então promovida) Akari.

Aria traz uma infinidade de detalhes sobre Veneza – prédios, história, pontos turísticos. É difícil de acreditar que a autora, Kozue Amano, não soubesse que, na vida real, mulheres nunca puderam ser guias das gôndolas em Veneza. A primeira mulher foi aceita só em 2010, dois anos depois de Aria deixar de ser publicado e do último episódio do animê ser transmitido. Essa realidade foi totalmente invertida no animê, mostrando mais uma diferença daquela sociedade para a nossa — talvez parte da “mágica” de Aqua.

Animação

Alice em off-model.

O diferencial de Aria não está na qualidade na animação, nem mesmo considerando-se o ano de produção. As cores deixam um pouco desejar, mas estão bem melhores na última temporada (Origination). O OVA de um episódio Arietta dá uma pequena amostra de como as coisas poderiam ter sido, porém. Diferente de outros animês lançados no mesmo ano (2005), como Air (Key), Aria não tem, pelo menos até o momento, lançamento em Blu-Ray, logo, é um pouco mais difícil avaliar o quanto as deficiências se devem ao desenho.

No entanto, a arte – herdada do mangá – é excelente, e os personagens são frequentemente colocados em “off-model” – desenhados de formas distorcidas – para efeito de comédia, o que funciona muito bem.

Os cenários de Neo-Venezia são absolutamente estonteantes e mais do que compensam as cores e detalhes ausentes – que nem são tantos assim. Apenas existem animês da mesma época com mais força nesse quesito.

Ilustrar Neo-Venezia foi um trabalho árduo o suficiente, e a riqueza de detalhes da cidade já merece muitos elogios.

Alicia Florence, no Origination (2008, esq.) e no OVA (2007), com cores e contrastes mais bem trabalhados.

Trilha sonora à brasileira

A excelente trilha sonora é resultado de uma parceria entre o pouco conhecido Takeshi Senoo com a banda Choro Club — e sim, esse “choro” é uma referência ao choro brasileiro. Belas músicas de folk compõem o plano de fundo da série e encaixam de uma forma maravilhosa.

Leva um tempo para se acostumar, porque é um estilo incomum para animês. No entanto, até o final da terceira temporada fica claro que a parceria dos compositores amadureceu e eles sabem muito bem o que precisam entregar — e entregam.

Apesar do trabalho do Choro Club estar um pouco mais brando do que nas músicas próprias da banda, inclusive por conta da tranquilidade que permeia o animê e que não dá vez a músicas mais agitadas, em algumas músicas a influência brasileira escapa sem nenhum pudor.

As músicas de abertura e encerramento são perfeitas para o clima de animê. De fato, Aria, diferente de maioria dos animês, não usa uma abertura fixa. A música entra já mostrando partes das cenas iniciais do episódio e, em alguns casos, ela vai para o plano de fundo antes mesmo do tempo habitual, com uma naturalidade própria da série. Para assistir Aria do jeito certo, a abertura nunca deve ser “pulada”.

Entre as músicas de encerramento, é fácil destacar Rainbow. Mas as aberturas, cantadas por Yui Makino, fazem todas um trabalho excelente; ainda destaco, porém, a primeira abertura: Undine.

Destaque também para o trabalho de Saitou Chiwa, voz da personagem Aika, a mais animada, falante e bipolar das protagonistas, e cuja interpretação encontrou consistência na inconstância da personagem.

Sem fim

Que os ventos do recomeço cheguem até você.”
— última frase

Aria ainda nos dá mais uma lição ao final: que as coisas na verdade não acabam e sim recomeçam. Animês não raramente têm finais frustrantes, porque não sabem terminar. Aria sabe que uma história sobre o ser humano nunca termina – que apenas pode haver um recomeço, e que uma hora o narrador precisa descansar ou contar outras histórias, nada mais.

Até por isso, o final da história coincide com a aposentadoria de Alicia, mentora de Akari. Mas as coisas continuam nas diversas caminhadas da vida que as pessoas decidem percorrer – cruzando-se às vezes, dividindo um barco ou calçada, e seguindo seu próprio rumo mais tarde.

Ficha Técnica
Título ARIA The Animation
ARIA The Natural
ARIA The OVA -Arietta-
ARIA The Origination 
Direção Jun’ichi Satō
Autora Kozue Amano
Compositor Choro Club
Senoo Takeshi
Lançamento (JP)
  • ARIA The Animation (TV)
    5 de Outubro de 2005 – 29 de Dezembro de 2005
  • ARIA The Natural (TV)
    2 de abril de 2006 – 26 de dezembro de 2006
  • ARIA The OVA -Arietta- (DVD)
    21 de setembro de 2007
  • ARIA The Origination (TV)
    8 de janeiro de 2008 – 31 de março de 2008
Duração 13 x 24m (Animation)
26 x 24m (Natural)
30m (Arietta)
14 x 24m (Origination)
Nota 10

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

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