Começou nesta terça-feira, 12 de abril, a 6ª edição do EBEQ, o Encontro Brasileiro para Estudo de Quirópteros – nome científico para “morcegos”. Realizado na Universidade Estadual de Maringá (UEM), ele reuniu 130 pessoas, muitas delas vindas de fora do Paraná, para acompanhar o evento até o dia 15. Na mesma terça-feira, Fernando Henrique Cardoso dava uma palestra na cidade. E quem se importa, então, com os morcegos?

Encontro Brasileiro para o Estudo de Quirópteros

Na abertura, organizadores comemoram segundo ano consecutivo do EBEQ. (Foto: Altieres Rohr/G42)

A imprensa não se importa. Não havia jornalistas visíveis. O evento não tinha credencial para jornalistas. Por outro lado, o maior jornal da cidade, O Diário do Norte do Paraná, fazia uma cobertura em tempo real, pela internet, da palestra do ex-presidente.

No entanto, era fácil perceber um grande otimismo no ar. E havia razões para isso. Era o segundo EBEQ em dois anos – EBEQ V, de 2010, foi oito anos depois do anterior, o quarto, de 2002; o terceiro foi em 1998, o segundo em 1982 e o primeiro data de 1978. Conseguir, pela primeira vez, reunir pesquisadores de um campo tão específico em dois anos seguidos é um grande feito.

E ainda havia mais para comemorar: o evento caminhava com as próprias pernas; antes, fora por vezes abrigado em outros congressos, principalmente de zoologia. E finalmente, os 130 participantes eram muito mais expressivos que os 20 da edição de 78.

Os pesquisadores se reuniram para falar de morcegos, mas o tema real pode ser transmitido com outra palavra: ciência. Poucas pessoas pensam todos os dias em morcegos, mas qualquer cidadão civilizado compreende os benefícios da ciência. Para o bom observador, o otimismo não deve se restringir aos estudiosos de morcegos. É, sim, um sinal da saúde da comunidade científica brasileira.

O que foi dito na cerimônia de abertura também provavelmente serve para qualquer outro campo da ciência: é preciso que pesquisadores compartilhem informações e colaborem. É preciso que eles tenham acesso a instrumentos adequados e saibam como usá-los. É preciso que sejam formadas e solidificadas sociedades de cientistas para que a comunidade de pesquisa seja adequadamente representada na sociedade – as colaborações da ciência são necessárias para realizar as transformações que o país precisa para avançar no conhecimento técnico e ético.

São essas reuniões de pessoas interessadas que juntam algumas pequenas peças no quebra-cabeças da ciência e da civilização. Ser incapaz de perceber a relevância de um evento como esse é também ser incapaz de perceber que a ciência não é uma entidade única e sim a reunião de pequenos fragmentos de conhecimento.

Que se discutam os morcegos então, para que a ciência eventualmente nos surpreenda – como sempre o faz – e mostre que há muito mais entre morcegos, a terra e o céu – e além dele – do que imagina nossa vã filosofia.

Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

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