Spiral: The Bonds of Reasoning (algo como “Spiral: Os Elos da Razão”) é um mangá shônen, do gênero “mistério”, que foi adaptado para um animê de 25 episódios. Joguei fora oito horas da minha vida assistindo este último.

Prometi a mim mesmo que não iria assistir animês baseados em mangá, visto que a lista de séries frustrantes que saíram deste tipo de adaptação é longa (a começar pelo “finais” decepcionantes das versões animê de Elfen Lied e InuYasha). Mas, de vez em quando, escapam alguns. E sempre existe aquela esperança de que teremos outra excelente adaptação nas veias de MONSTER ou Chobits, ou pelo menos algo aceitável como emDeath Note.

Mas e Spiral? Spiral começa com um grave problema que, apesar de também presente outras séries, é acentuado devido ao seu gênero: o mangá só acabou em 2005, mas o animê é de 2002/2003. Ou seja, é uma série animada de mistério cujos mistérios jamais são revelados, porque o trabalho original na qual foi baseada ainda estava na metade e não os tinha revelado.

Já é possível imaginar o tamanho da decepção ao se chegar no fim e não saber absolutamente nada que tanto se queria saber.

A série também rodeia muito. O personagem principal, Ayumu Narumi, é inicialmente “testado” por uns tais de Blade Children, que são “crianças amaldiçoadas”. Eles precisam ser “salvos” de alguma coisa, só que até o fim você nunca saberá do quê exatamente é que precisam ser salvos, nem qual a origem da dita “maldição”.

Mas o enredo engana. Lá pela metade começam a aparecer os Hunters, que querem exterminar os Blade Children e você pensa que, talvez, é para derrotar os Hunters que eles precisam de ajuda. Só que, na maioria dos casos, os Blade Children se viram muito bem sozinhos, o que deixa o Narumi deprimido, afinal ninguém precisa dele. E aí ele fica magoado porque nunca vai ser tão bom quanto o irmão, que é citado infinitamente na série por todos os personagens e aparentemente todo mundo o conhece, mas ninguém sabe se está vivo. O tal irmão nunca aparece, nem dá notícia, mas ele supostamente é O CARA. Por que ele não salvou os Blade Children ele mesmo? Por que teve de deixar a tarefa para o irmão? Se quer saber isso, digo já: o animê não sabe pra te responder.

Não é necessário dizer que as freqüentes citações do irmão do personagem principal perdem rapidamente seu sentido e profundidade. Aliás, uma coisa boa do último episódio é quando Narumi pergunta: “Quando vocês vão parar de citar o meu irmão?” Era tempo.

Porém, isto é muito pouco e tarde demais. Spiral é frustrante, desrespeita o telespectador ao não revelar coisa alguma depois de 8 horas e acumula diversos problemas, entre eles os personagens sem graça desenvolvidos minimamente e uma trilha sonora nada memorável (com uma música de abertura terrível! se os seus ouvidos não doerem ao ouvir “searching for new world” naquela voz espremida, ele deve ter algo que o meu não tem.[1. Não é brincadeira. A música de abertura é tão ruim que eu desligava a caixa de som ao executar o arquivo no MPlayer, porque, após abrir, eu ainda precisava mudar a razão de aspecto para 16:9, o que resultava numa nova execução do início da letra (“Searching for new world…”). Insuportável.])

A série também é pretensiosa e tenta ser bem “racional”, como o próprio título já diz. Narumi é para ser um rapaz muito racional e lógico. Por vezes, ele diz que “a melodia da lógica sempre toca a nota da verdade”. Ele também demonstra uma variedade de conhecimentos gerais, das propriedades físicas do vidro às do ar e, com sua inteligência, vai resolvendo os “problemas” e arquitetando mirabolantes planos para sobreviver aos testes dos Blade Children e aos ataques dos Hunters.

Arremessar uma chave de um trem em movimento. Simples e lógico.

Arremessar uma chave de um trem em movimento. Simples e lógico.

O problema é que a racionalidade da série nem sempre faz sentido. Em um dos episódios, o “plano” de Narumi envolve o recebimento de uma chave que é arremessada a partir de um trem em movimento de alta velocidade. A precisão do arremesso é tal que Narumi recebe a chave sem se mover: ele apenas levanta o braço e mantém a mão para cima enquanto chave cai perfeitamente na palma da sua mão.

Este tipo de erro não seria um problema não fossem as constantes tentativas de manter a lógica e a razão em tudo o que acontece em Spiral. Por conta disso, a própria premissa da série é ameaçada pela sua pretensão e inconsistência.

O bom das séries de mistério é a perfeição com que tudo vai se encaixando aos poucos. No animê do Spiral, não há encaixe. Dúvidas apenas se acumulam, nunca se resolve nada. E ao final da série, temos muito mais perguntas do que respostas. Não parece que se chegou no final, mas na metade. O que não deixa de ser verdade, já que o mangá estava na metade quando a série foi desenvolvida.

Para quem vai ler o mangá, o animê é desnecessário. Para quem quer assistir apenas o animê, ele não apenas será insuficiente, mas repetitivo e entediante. Não perca o seu tempo. Se procura um bom animê de mistério ou investigativo-policial, não é aqui que vai encontrar.


Publicado originalmente no blog Ira Racional. Data de publicação original mantida.

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spiral-cover Título Spiral – The Bonds of Reasoning Nota
Direção Shingo Kaneko 3.0
Roteiro Chinatsu Houjou, Katsuhiko Koide, Mitsuyasu Sakai, Tetsuo Tanaka Grau
E
Compositor Akira Mitake
Estúdio J.C. Staff
Lançamento 10/2002 — 03/2003
Duração 25 x 23 minutos
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Escrito por Altieres Rohr

Jornalista e tradutor. Editor dos sites Linha Defensiva e Garagem 42 e colunista de Segurança Digital no portal G1 da Rede Globo.

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